A atividade física adaptada no continente Sul-Americano

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O tema ‘atividade física adaptada’ pode ser desenvolvido sob os mais variados enfoques. Um deles poderia ser a participação dos atletas em eventos esportivos tais como as Paraolimpíadas ou as Olimpíadas Especiais, em que o Brasil e outros países da América do Sul tem expressiva participação. A despeito desta evidência, na condição de representante regional na América do Sul/América Central da IFAPA – International Federation of Adapted Physical Education (Federação Internacional de Atividade Física Adaptada), o enfoque a ser dado no presente texto está relacionado ao desenvolvimento profissional e acadêmico da Educação Física Adaptada.

A América do Sul e América Central é composta pelo Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Venezuela, Colômbia, Trinidade e Tobago, Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Belize. Se considerarmos ainda Jamaica, Cuba, Haiti, República Domenicana e o México, somam-se 26 países, cuja língua oficial é o espanhol e o português.

A IFAPA é dirigida por profissionais de diferentes países. Conta com representantes regionais na Ásia, África, Europa, Oriente Médio, Oceania, América do Norte, e América do Sul/América Central. Na Europa, Ásia e América do Norte existem também associações regionais, que promovem o intercâmbio de informações entre os países das respectivas regiões.

Para disseminar conhecimento e informação a IFAPA utiliza fundamentalmente de dois meios de comunicação: realiza bianualmente o International Symposium of Adapted Physical Activity – ISAPA (Simpósio Internacional de Atividade Física Adaptada) e publica trimestralmente o IFAPA Newsletter (boletim informativo da IFAPA), que é enviado juntamente com o exemplar da revista Adapted Physical Activity Quarterly – APAQ aos sócios filiados. Toda a divulgação é feita em inglês, o que possivelmente restringe a adesão e participação de países de língua hispânica e portuguesa.

Tudo tem sua história, e toda história se compõe passo a passo. No Brasil, um dos marcos de desenvolvimento profissional e acadêmico ocorreu em 1984 quando foram estruturados alguns cursos de preparação profissional para atender uma demanda futura de inserção da disciplina Educação Física Adaptada no ensino superior. Em 1986 aconteceu o I Simpósio Paulista de Educação Física Adaptada, e nos anos pares subseqüentes este seria o evento que reuniria os profissionais e estudantes da área. Em 1988 foi criado o primeiro curso de especialização em Uberlândia, que até os dias de hoje é um dos cursos de referência no país. Com o ingresso de docentes nos cursos de pós-graduação stricto sensu, um novo perfil se delineou. Em 1989 houve a primeira participação brasileira num ISAPA, e a partir de então, em cada ano ímpar, outros profissionais compareceram a ISAPAs, sendo que na última edição, em julho de 2001, 20 resumos de trabalhos brasileiros foram publicados nos anais. A USP e UNICAMP foram pioneiras na formação de mestres e doutores, e hoje dividem o mérito da produção de conhecimentos com tantos outras Instituições de Ensino Superior e laboratórios de pesquisa que se instalaram em várias capitais e cidades do Brasil. Alguns colegas optaram pelo aprimoramento dos estudos no exterior, e hoje retornam trazendo novas experiências e idéias para o desenvolvimento da pesquisa. Em 1991 desencadeou-se a idéia de fundar uma sociedade que auxiliasse a congregar os profissionais da área. A Sociedade Brasileira de Atividade Motora Adaptada – SOBAMA foi fundada em 1994. Nesta época, por iniciativa da Eliane Mauerberg-deCastro, foi criada a revista BIJAPER – Brazilian International Journal of Adapted Physical Education Research, que possibilitou a internacionalização do Brasil na EF Adaptada. A partir de 1995 a SOBAMA assumiu a realização bianual dos congressos brasileiros de atividade motora adaptada. Também investiu na idéia de publicar uma revista científica e lançou seu primeiro exemplar, hoje na 6a edição. Acompanhando os modernos recursos da informática, a Ruth Eugênia Cidade (presidente da SOBAMA na gestão 2000-2001) expandiu a homepage da SOBAMA, mantendo-a ativa e com uma dinâmica ágil proporcionando informações atuais a todos interessados em busca-la no website www.sobama.org.br. Em outubro de 2001, o IV Congresso Brasileiro reuniu 500 inscritos que atenderam ao programa e puderam usufruir de informações dos aproximadamente 200 trabalhos publicados nos anais. Várias outras iniciativas regionais, a exemplo do Simpósio SESC de Atividades Físicas Adaptadas, realizado em 2001, e agora em 2002, contribuem para a massificação da EF Adaptada no Brasil, propiciando um maior acesso ao conhecimento e favorecendo a ampliação de serviços prestados à comunidade.

A Educação Física Adaptada ganha novos adeptos, e amadurece enquanto área de conhecimentos. Adaptando e complementando a definição de Educação Física proposta por Betti (1998), gostaríamos de sugerir a seguinte definição para Educação Adaptada:

“EDUCAÇÃO FÍSICA ADAPTADA constitui a área de conhecimentos relativos à cultura corporal de movimento da pessoa com uma diferença significativa, particularmente a deficiência/discapacidade.
O programa de EF Adaptada utilizar-se-á de atividades físicas/motoras (portanto conteúdos) como ginástica, dança, jogo, esporte, podendo ser realizados em terra, no ar, na água, ou quiçá no fogo. Considerando-se os diversos contextos em que as atividades físicas/motoras podem ser realizadas, estabelece-seuma relaçãomeio-fim. Assim que, na escola se objetiva a escolarização, na academia o condicionamento físico ou a estética, no clube ou centros esportivos o resultado, nos hospitais ou clínicas a reabilitação, no espaço de lazer a pessoalidade, na empresa a produtividade, no acampamento de férias a convivência. O universo de possibilidades é variado e será definido pela vontade e necessidade do praticante. O processo para alcançar as metas deve contemplar os domínios cognitivo, motor e emocional/social promovendo o desenvolvimento do saber, do saber fazer, do saber ser e do saber conviver”.
Quem são e quantas são as pessoas com uma diferença significativa/deficiência/discapacidade? A EF Adaptada abrange um largo espectro de crianças, adolescentes, adultos e idosos, que engloba uma parcela muito maior do que a identificada no Censo 2000. Segundo dados divulgados recentemente, 14,5% da população brasileira (24,5 milhões de pessoas) apresentam algum tipo de deficiência motora/física, visual, auditiva ou mental. Mas se considerarmos que há outras diferenças/deficiências além destas, talvez possamos pensar em algo em torno de 40% da população, cujas características demandam consideração para uma adequada orientação em programas de atividades física. Parece que ainda necessitamos re-afirmar o que Ligia Assumpção Amaral preconiza: é preciso re- significar a diferença, e para tanto há que se des-adjetivar o substantivo diferença.
Ser diferente não é ser melhor ou pior. A diferença simplesmente é. Olhar para a diferença/deficiência/discapacidade e perceber não a limitação, nem a desvantagem, mas a diferença, as capacidades, a essência do ser humano contribui para um efetivo processo voltado para assegurar os direitos humanos, os direitos sociais e melhorara a qualidade de vida.

Caracterizar a EF Adaptada, e ampliar o universo de quem e quantas pessoas podem se beneficiar de programas regulares de atividade física/motora, incentivar o desenvolvimento profissional nas mais diversas formas de atuação, promover o desenvolvimento acadêmico através da produção de conhecimentos nas diversas ciências, constitui um dos maiores desafios no atual contexto.
Todos envolvidos no presente evento, fazem parte desta história. Hoje já colhemos frutos de sementes plantadas há quase 20 anos. Tomara as novas safras/gerações gerem mais e mais frutos, saboreiem as mudanças, aumentem a produtividade e a competência acadêmica e profissional.
O Brasil é exemplo de que é possível ter sonhos e realizá-los. Há muito ainda a ser feito. A EF Adaptada está apenas dando os seus primeiros passos. Com a realização do I Encontro do Mercosul de Atividade Motora Adaptada, em agosto próximo, em Porto Alegre, espera-se ampliar os laços de relacionamento com alguns países Sul- Americanos. E assim, passo a passo, aumentar a rede de profissionais atuantes no continente sul-americano.

Referências Bibliográficas:
Amaral, L. A. (1995) Conhecendo a deficiência (em companhia de Hércules). São Paulo, Robe Editorial.
Betti, M. (1998) A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. Campinas, SP, Papirus.
Censo (2000) www.ibge.com.br
DePauw & Doll-Tepper (2000) Toward progrssive inclusion and acceptance: myth or reality. The inclusion debate and bandwagon discourse. APAQ, v.17, n.2, p.135-143.

Verena Junghähnel Pedrinelli
Graduada e Pós-Graduada (Mestrado) em Educação Física na EEFE/USP;
Docente na Universidade São Judas Tadeu;
Sócia efetiva da Sociedade Brasileira de Atividade Motora Adaptada – SOBAMA;
Representante Regional na América do Sul/América Central da IFAPA – International Federation of Adapted Physical Activity. 
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